A presentificação do passado

Crítica da peça A Partilha, de Miguel Falabella

23 de agosto de 2012 Críticas
Foto: Paula Kossatz.

Miguel Falabella olha com esperança para as personagens de A Partilha, irmãs que se reencontram no velório da mãe e promovem um acerto de contas doce-amargo ao longo do processo de divisão dos bens familiares. Maria Lúcia, Regina e Laura se esforçaram para reescrever suas histórias, mesmo que através de relacionamentos nem sempre norteados pelo amor. Se não acertaram, contabilizam, pelo menos, o esforço da mudança. Selma, apesar de ter se acomodado num casamento burocrático, começa a ensaiar uma transição.

A passagem do tempo diminui a possibilidade das personagens transformarem suas realidades e elas, apesar de desejarem recomeçar, já não têm a disposição da juventude. Em todo caso, o correr dos anos ajuda as irmãs a rirem de suas próprias mazelas. A capacidade das personagens de se divertirem com as suas trajetórias, até quando não conseguem evitar certo travo melancólico diante da evocação de fatos dolorosos, decorre da percepção de que a vida não deve ser levada tão a sério.

A forçada retomada do convívio gera inevitáveis discussões e rompantes catárticos. As irmãs hesitam, em dados instantes, entre o elo afetivo com o passado e o pragmatismo do presente. Lamentam, em certa medida, se desfazer do apartamento da família onde passaram parte de suas vidas (a saudade constante do espelho antigo simboliza isto), mas não a ponto de abrirem mão de uma visão prática. Precisam do dinheiro da venda e sabem que as lembranças continuam presentes dentro de cada uma.

A Partilha estreou há 22 anos e representou um divisor de águas na dramaturgia de Miguel Falabella, que já tinha acumulado experiência na escrita de textos ácidos e críticos do besteirol. Entretanto, aqui o autor apresentou uma abordagem amorosa que seria mantida em algumas de suas peças seguintes, especialmente em A Vida Passa, em que retomou, com bastante sensibilidade, as mesmas personagens, anos depois. Outros textos podem ser citados – como No Coração do Brasil, que nasceu das memórias da infância e adolescência na Ilha do Governador que vêm à tona por meio da carinhosa descrição de um cinema de rua; Querido Mundo, que evidenciou a habilidade em abordar o cotidiano da classe média por meio do convívio entre marido e mulher; e Como encher um Biquíni Selvagem, que comprovou seu apreço pela humanidade a partir da reunião de uma galeria de personagens numa estrutura de monólogo.

Essa nova montagem de A Partilha foi redimensionada. O primeiro espetáculo despontou em espaços reduzidos – os teatros Cândido Mendes e Vannucci –, contrastantes em comparação com a amplidão do Oi Casa Grande. Se por um lado o intimismo deixa saudade, por outro as qualidades de A Partilha estão preservadas. Miguel Falabella entrelaça momentos mais feéricos com outros mais concentrados (como o ótimo encerramento na cena em que as irmãs lêem cartas escritas em diferentes partes do mundo, comprovando que as relações sobrevivem na distância).

A cenografia de Beli Araújo traz uma solução irresistível – e teatral – na passagem da primeira para a segunda cena e recria com competência o obsoleto apartamento de Copacabana, localizado na vizinhança de prédios célebres, como o Copacabana Palace e o Chopin. Os figurinos de Sonia Soares oscilam entre certa sobriedade no velório e cores fortes nos diversos encontros das irmãs, procurando diferenciar as personagens por perfil e esfera social. A iluminação de Paulo César Medeiros aquece o ambiente, revestindo de pessoalidade a atmosfera do velho apartamento.

As atrizes – as mesmas do elenco original (com exceção de Patricya Travassos, no lugar de Natália do Vale) – revelam apreciável fluência na interpretação das personagens. Arlete Salles se destaca como Maria Lúcia pelo domínio do timing de humor, a exemplo das variações de tom que imprime em diversos momentos. Susana Vieira aproveita as tiradas certeiras do texto e não se deixa levar pelo exagero como a esfuziante Regina. Patricya Travassos se vale de seu peculiar registro vocal sem perder de vista a dimensão da amargura de Selma. Thereza Piffer imprime firmeza a uma Laura suficientemente amadurecida para se afirmar diante das irmãs.

Daniel Schenker é doutorando da UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da Isto É / Gente.

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