Assembleia de constrições sem ajuizamentos

Crítica da peça Ato de Comunhão, de Lautaro Vilo, com Gilberto Gawronski

21 de fevereiro de 2012 Críticas

O que fundamenta a encenação de Ato de comunhão é a pesquisa de uma linguagem que possa materializar aspectos do psiquismo humano em seus momentos limítrofes. Essa intenção edifica o originário da própria noção de arte – o que, no espetáculo, criou uma zona de indeterminação entre a linguagem da performance e do teatro que as enriquece em termos de proposição e de resultados. A peça, com direção e atuação de Gilberto Gawronski e co-direção de Warley Goulart, encena o texto do argentino Lautaro Vilo que é inspirado no caso verídico ocorrido na Alemanha em 2001, no qual um homem praticou canibalismo consentido em outro homem. No texto, o protagonista do referido ato faz um alerta aos possíveis tradutores de sua fábula para o cinema de que ele, Frank da Alemanha, cometeu uma estupidez e que estes não devem cometer outra: ele não é Hannibal Lecter – referindo-se ao conhecido personagem de ficção criado pelo escritor Thomas Harris e vivido por Anthony Hopkins no cinema –, ele não permitirá trilogias, jogos de câmera, cenas de perseguições de carro, tiros ou vertigens. O que ele deseja é um ator com semelhança física e que possa compreender a questão com “ressonância trágica”.

Talvez possamos, para descrever a constituição das escolhas da encenação da dupla de diretores, requisitar Sartre na introdução de A imaginação, que nos esclarece que “essa inércia do conteúdo sensível, tão frequentemente descrita, é a existência em si.” (SARTRE, 2001, p.7), ou seja, uma espécie de resistência passiva.

A tradução de Amir Harif encontrou a sobriedade que o assunto merece e que parece desbancar qualquer imaginação sensacionalista que, por vezes, se encontra disponível no senso comum. Acredito que esse material escrito tenha sido um coerente originário para o trabalho. A multiplicidade dos aspectos psíquicos da existência de um sujeito em tal condição limite é materializada por meio das projeções em cena que nos remetem às possíveis facetas e duplicidades que cabem em um mesmo corpo. Essa opção pela visualidade é um elemento dramatúrgico que multiplica os sentidos impressos no corpo do ator e ainda ativa certos modos de recepção que enfrentam a tarefa de constituir pensamentos por meio da montagem de materiais. Assim, é muito difícil apurar o trabalho por uma leitura linear e discursiva na qual, comumente, a interpretação só se encontra ao final. Os sentidos da existência são múltiplos e intempestivos. No momento em que o ator/personagem descreve o enterro de sua mãe, a projeção nos remete ao infinito de um céu pelo efeito de sua exposição em diagonal. Lirismo e respiração, ambos de algum modo necessários aos processos imaginativos requisitados pelo texto.

A direção privilegiou sua perspectiva na ideia de comunhão criando uma ambientação sóbria com pequenos nichos de objetos que ressaltam o aspecto da crença. Esta última aparece devido ao equilíbrio tenso entre os objetos escolhidos, ao fato de que cada um está colocado religiosamente em um local que não os faz distinguíveis de imediato e ao modo importante como são manipulados. A assembleia se reúne para testemunhar uma existência, não apenas o fato isolado que tornou o personagem conhecido. Nesta perspectiva é que o percurso de vida do personagem aparece narrado em seu aniversário de oito anos, na cerimônia da morte de sua mãe por ocasião da juventude do protagonista e, por último, no encontro com o homem que conheceu pela internet e que se deu ao rito final do canibalismo consentido. Esse engendramento proporciona o aparecimento, no contemporâneo da cena, de aspectos traumáticos da infância e da juventude, menos como possíveis justificativas do ato e mais como insurgência das diferentes temporalidades que formam nosso presente. Aqui está um aspecto importante da direção que desfaz apreensões psicológicas – como as já referidas de causa e efeito. A sobredeterminação criada com a imagem da obra de Francis Bacon implica uma apreensão estética própria dos processos de codificação artística e ainda problematiza as possíveis determinações do espelhamento. A utilização do espelho e da projeção de Bacon atesta a impossibilidade da apreensão da alma humana pela adequação e encaixe em determinismos mais conhecidos.

A atuação de Gilberto Gawronski é fundamental para essa leitura que imbrica o sensível e o transcendente na cena. O ator construiu um percurso artístico no teatro sempre tensionado pela noção de uma materialidade em trânsito entre os elementos sensíveis, a necessidade de compreender o indescritível e seus modos contemporâneos de fazer sentido. Dedicou-se, para citar alguns topos, à tradução performática do conto A dama da noite de Caio Fernando Abreu, na qual os elementos de encarnação e construção mimética se transformaram para além de suas fronteiras, culminado aqui em Ato de comunhão, numa sóbria e articulada apropriação gestual pautada pelo afeto e experiência com o discurso narrativo que não esconde se referir à uma construção do outro.

A recriação do universo pop de Andy Warhol parece ter definido (ou refletido) uma ação de pensamento na sua carreira de ator que buscou por um ato reflexivo e de grato distanciamento no que se refere à noção de serialização e de consumo da imagem icônica, o que nitidamente favorece sua exposição de Frank da Alemanha. Ainda decidiu rir e ironizar de si mesmo com Quero ser Gilberto Gawronski e, revela, refez seu entendimento da experiência com o trabalho desenvolvido com a diretora carioca Celina Sodré. Esse trânsito por elementos performáticos, teatrais e das artes plásticas parece ter conferido, para pensar em um aspecto relevante para esta reflexão, um teor de materialização cênica calcada na imanência, nos pequenos atos (descritos ou realizados), na conformação de um espaço da cena que viabiliza sua própria experimentação.

Em Ato de comunhão, Gawronski se oferece com uma economia estética em ação, com uma tonalidade vocal afinada com as fortes revelações da cena/texto, sem pieguices ou construções de transições de estados internos que imprimem causalidades. Sua tradução da relação ator/personagem se diferencia por esse tratamento cuidadoso das ações, da fala e do modo de estar em cena – um modo constrito de afetação – que revela em um movimento constante o duplo estatuto do ator de teatro entre este e o personagem. Esse apuro não envolve o espectador nem pelo horror, nem por supostos juízos de valor, deixando margens para apreensões individuais do ato teatral.

Referência bibliográfica:

SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. Trad: Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2001.

Dinah Cesare é Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (EBA- UFRJ) dentro da Área de Teoria e Experimentações em Arte na linha de pesquisa Poéticas Interdisciplinares, é mestra em Artes Cênicas pela UNIRIO.

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