Amor e impressões materiais da cena

Crítica da peça Fragmentos, dirigida por João Paulo Cuenca e Fernanda Félix

27 de novembro de 2011 Críticas
Fragmentos. Foto: Jorge Bispo.

Histórias de amor parecem não esgotar possibilidades de criação ficcional no cenário teatral carioca nas temporadas que estão ou já saíram de cartaz nesse segundo semestre. As hesitações do indivíduo diante da insegurança e do medo de assumir uma paixão, os relatos subjetivos que denotam a incômoda segurança de uma relação estável, os diálogos que beiram o monológico, em que se manifestam estados de crise de um casal, os momentos nostálgicos do primeiro encontro e a dor da separação tornam-se temas recorrentes em textos constituídos a partir de olhares e perspectivas bastante singulares. Diante desse cenário romântico, as variadas formas de tematizar o amor e os seus desdobramentos oferecem aos espectadores o gosto pela identificação com as situações expostas, permitindo ao público rir ou sofrer junto com o patético, com a mentira, com a falta do que dizer e com a felicidade de um juramento que se propõe eterno.

Em Fragmentos, montagem que esteve em cartaz no Oi Futuro Flamengo e que fará segunda temporada no Teatro Dulcina, as pistas que denotam as indagações descritas acima podem ser decifradas na contribuição dos textos elaborados por Alessandra Colasanti, Bruna Beber, Felipe Bragança, Fernanda Félix, Keli Freitas, João Paulo Cuenca, Lucas Paraizo, Ramon Mello e Vitor Paiva, que exploram peculiaridades de momentos banais de uma vida a dois, a partir do confronto de olhares, pontos de vista e interrogações possíveis do universo particular de cada autor, aproximando o tratamento final do texto cênico, de certa maneira, dos pressupostos estabelecidos por Roland Barthes no prefácio de Fragmentos de um discurso amoroso (livro no qual a montagem é baseada), quando esclarece que serviu-se de enunciações díspares do sujeito apaixonado, retirado dos romances, das leituras filosóficas, das lembranças de conversas com amigos íntimos e dos resquícios de suas próprias memórias, não para criar a imagem idealizada e psicologizada do homem que ama, mas para compor um quadro estrutural deste ser enamorado que fala, diz, vocaliza. Esse é o foco principal do livro.

O casal formado pelos atores Bianca Joy Porte e Fabrício Belsoff estão em cena, em ações cotidianas – lêem recados no mural, caminham, refletem, observam. Parece que, por mais que estejam ocupando o mesmo lugar ficcional, o apartamento que dividem, estão imersos em suas reflexões. No entanto, se esbarram, trocam algumas falas entre eles, saem, voltam a cismar sozinhos pelos cantos. Logo em seguida, após o terceiro sinal, começam a enunciar a intimidade de seus sentimentos: ambos têm medo, tem pressa de chegar, transitam pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, ou de carro ou de bicicleta, espreitam outros casais, tem ânsia de falar ao telefone, esperam até o limite do possível, galhofam (especialmente no caso de Fabrício), são tímidos, inventam e reinventam encontros, viagens e situações, dramatizam, introjetam e exteriorizam os sintomas de uma relação a dois. Não temos certeza sobre qual das versões apresentadas pelo casal corresponde à verdade dos fatos: se eles se conheceram durante um vôo, onde ela comeu o sanduíche que a aeromoça trouxera para ele ou se foi durante uma festa, onde os dois estavam completamente embriagados, e onde uma conversa tola era simples estratégia para se aproximar e alcançar o objetivo da conquista. É na atmosfera dos sentimentos tumultuados pela incerteza e na incapacidade de ler o que se passa na cabeça do outro que aquelas criaturas falam para o público, expõem seus sintomas. Tem-se a impressão de que é esse o estado de euforia e apreensão que as figuras dos atores tentam emanar, para o público, no espaço da cena.

Toda essa movimentação e necessidade (ou desgaste) do outro é banhada pelo elemento material que pode ser considerado como o terceiro protagonista da peça. Um aspecto que permite ao espectador ser perturbado, desviando suas atenções do eixo sequencial da narrativa refere-se diretamente ao visual plástico que reveste a montagem, numa conjunção de luz e cenário branco, que vai adquirindo tonalidades diversas de cores no caminhar da trama, tomando de assalto nossas percepções mais sensíveis. O cenário de Aurora dos Campos e a iluminação de Tomás Ribas contribuíram decisivamente para instaurar uma harmonia estética em que, juntos, criaram um conjunto que se assemelha a uma instalação. As cores que vão penetrando no ambiente conduzem a percepções que não resultam numa chave de entendimento prévio, como seria possível deduzir numa leitura de cores quentes e frias como determinantes em cenas mais tensas ou alegres. Não se trata disso. O revestimento formado pelo branco que acolhe o ambiente cênico possibilita a criação de atmosferas, independentemente dos estados de alma dos personagens. A iluminação, creio eu, não foi pensada para sublinhar nem corroborar a dramaticidade da cena, ela não se presta a se servir como ilustração de uma fábula, mas deixa o espectador livre para buscar conexões e referências a partir do impacto estético.

Há um pensamento sobre o desenho da luz que se quer autônomo e é raro encontrar um tratamento tão refinado como esse nos espetáculos atualmente em cartaz.

Pedro Allonso é ator e bacharel em Artes Cênicas, com habilitação em Teoria do Teatro pela UNIRIO.

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