Jogando com Nelson Rodrigues

Crítica da peça Até que a morte nos separe, da Mênades & Sátiros Cia de Teatro, grupo de Presidente Prudente

18 de outubro de 2011 Críticas

Até que a morte nos separe, da Mênades & Sátiros Cia de Teatro, grupo de Presidente Prudente, apresentou no Festival Nacional de Teatro da respectiva cidade uma criativa versão de A vida como ela é, de Nelson Rodrigues, baseada nos contos O pastelzinho, Desastre de trem, O pediatra, Noiva da morte e Perfume de mulher.

Sua cena é essencial, fincando-se exclusivamente no trabalho do ator. Palco nu, com alguns praticáveis em diferentes tamanhos e formatos que servem como módulos de mutação da cena. Figurinos, cenário e iluminação se apresentam, de modo geral, em tons cinza, azulado, lilás, bege, branco. Uma visualidade clean. Suas imagens cênicas são construídas em torno da performance dos atores e dos jogos de luz, possibilitando ao espetáculo mobilidade, ritmo e beleza plástica.

O elenco atua nos registros narrativo e dramático, com ênfase no primeiro. Mas é a partir do jogo que o seu trabalho se fundamenta, conferindo-lhe uma atuação, ao mesmo tempo, espontânea e rigorosa. Exemplar é o trabalho do coro que, apresentando, conduzindo, comentando, interagindo ou servindo de espelho da ação que ocorre paralela à narração, desempenha o papel de protagonista do espetáculo. Seus gestos e movimentos são intensos e precisos; por vezes, hiperbólicos, conferindo às atuações, em determinados momentos, uma comicidade grotesca. Sob o seu olhar, os personagens de cada conto tornam-se marionetes. Mesmo trabalhando em diálogo com as cenas representadas, o coro preserva uma certa autonomia ao que é narrado, além de uma multiplicidade de vozes dentro de sua própria unidade. Uma polifonia, dir-se-ia. Por essa ênfase no trabalho coral, não se pode mencionar destaques individuais. Não existem grandes desníveis interpretativos entre os atores, mas a força de um conjunto, como se todos fizessem parte de um mesmo organismo: o espetáculo.

O jogo também é o eixo condutor da encenação. Nesse sentido, no que concernem às relações entre texto e cena, o que se evidencia no palco não é exatamente a recriação do já conhecido universo ficcional de Nelson Rodrigues (por mais que ele esteja presente no espetáculo), mas o estabelecimento de um discurso paralelo (a encenação), a caminhar lado a lado com o texto, não tentando contradizê-lo, refutá-lo, ou interpretá-lo; porém, criando uma relação. Um jogo. Há uma liberdade neste “diálogo” com Nelson Rodrigues que permite à encenação um discurso independente do texto, sem, entretanto, perdê-lo de vista. Pelo contrário, torna o autor de A vida como ela é em um parceiro de jogo.

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