Dom Pedro II e as ruínas da História

Crítica da peça 2º D. Pedro 2º, espetáculo da Cia. Les Commediens Tropicales, grupo de São Paulo

19 de outubro de 2011 Críticas

No Teatro Municipal Procópio Ferreira, durante o XVIII Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente, o palco é todo coberto por uma lona de caminhão. Ao fundo, uma cortina branca. Nas laterais, formando quase um semicírculo, armários de arquivo de escritório. E ainda dois microfones. Um espaço indeterminado que remete a um escritório, um arquivo público ou um depósito. Este é o ambiente do 2º D. Pedro 2º, espetáculo da Cia. Les Commediens Tropicales, grupo de São Paulo/SP, que funde as linguagens da performance, do teatro e das novas mídias.

Como o próprio título indica este é um espetáculo que apresenta uma versão outra da história do Brasil, mais particularmente do Imperador D. Pedro II. Poder-se-ia dizer ser esta uma história politicamente incorreta. Sob o viés da paródia, o grupo reconta, em narrativa fragmentada e estilhaçada, passagens canônicas da vida do imperador brasileiro: do nascimento até o fim do Império. O caráter peculiar desta abordagem do personagem em questão é a desconstrução que o grupo empreende da história oficial. Eficaz nesse sentido é o recurso às diversas tecnologias multimídias na cena. Em vários momentos, a cortina branca é transformada em tela de projeção em que são exibidas imagens dos atores captadas ao vivo ou gravadas anteriormente; das gavetas dos armários de arquivos surgem televisores reproduzindo gravações dos atores, cenas filmadas em estúdio, que substituem momentaneamente o que acontece ao vivo no palco ou contracenam com os próprios atores em cena; também são usados diversas vezes microfones, e vozes em off substituem as vozes dos atores em certos momentos.

Essa multiplicidade de recursos tecnológicos possibilita uma fragmentação da narrativa e do foco de atenção do espectador. À medida que o espetáculo avança vão se intensificando o uso dessas tecnologias até o ponto em que elas passam a serem utilizadas simultaneamente, provocando um colapso tanto na escritura cênica quanto na percepção do público. O que se apreende é a instauração de discursos múltiplos sobre a história oficial que colocam em cheque a sua validade estática monolítica. Significativa é uma das cenas em que, tratando dos bastidores da promulgação da Lei Áurea, os atores sentam-se ao fundo, do lado direito do palco, e posicionando-se de forma neutra na cena, eles enunciam suas falas, enquanto no telão de fundo é reproduzida uma gravação da mesma cena, só que dessa vez muda e plena de gestualidade, ao contrário do que ocorre no palco. Paralelo a isso, um guitarrista que acompanha musicalmente o espetáculo começa a reger a cena que se passa sobre o tablado, como se em uma orquestra. E três televisores (dispostos nas gavetas dos arquivos) exibem ao mesmo tempo um videoclipe do rapper 50 Cents, um filme de ação com atores negros, e uma série televisiva com o ator Will Smith. Todos são referências da cultura norte-americana. Essas são vozes/imagens tecnológicas e digitais que refutam, contradizem, parodiam ou trazem outros ângulos de visão sobre o que é contado. Ao final do espetáculo, ao som furioso da guitarra, os atores destroem todo o cenário, sobretudo os armários de arquivos, e exigem que uma nova história seja escrita. O que resta então no palco são escombros. Possivelmente, as ruínas da História.

2º D. Pedro 2º parece retomar a imagem benjaminiana da história como um amontoado de ruínas, em contraponto ao discurso oficial que a congela, oferecendo uma falsa visão unívoca dos fatos. Sob o olhar do presente, eles apresentam uma história em escombros, sendo a ação cênica o próprio ato de destruição desta história. No fundo, ela é inapreensível em sua totalidade e só a partir dos seus cacos é possível compreender o presente e lançar novas luzes sobre o passado. E vice-versa.

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