Sob o império do controle

Crítica da peça A Última Gravação de Krapp, de Samuel Beckett, com Bob Wilson

29 de setembro de 2011 Críticas
Bob Wilson. Foto: Mariano Czarnobai.

A decisão de Bob Wilson de encenar – e trabalhar como ator – A Última Gravação de Krapp, uma das principais atrações da última edição do festival Porto Alegre em Cena, é bastante compreensível. Em primeiro lugar, Wilson está completando 70 anos, a mesma idade do personagem de Samuel Beckett, o que confere a este trabalho um caráter, em alguma medida, revisionista ou memorialista.

Além disso, pode-se traçar uma associação entre a importância do controle na dramaturgia de Beckett e no teatro de Bob Wilson, que, não por acaso, debruçou-se, nos últimos anos, sobre outro texto do autor: Dias Felizes, em que a atriz Adriana Asti interpretava Winnie em montagem apresentada no Brasil. Em sua dramaturgia, Beckett costuma lançar indicações muito precisas – o que não impede o encenador de desobedecê-las, como fez Peter Brook ao encenar peças curtas do autor (optando, simbolicamente, por não colocar em cena uma cadeira de balanço num texto chamado Cadeira de Balanço).

Bob Wilson também não se projeta como um discípulo obediente de Beckett, mas volta a afirmar a questão do controle em seu teatro. O Krapp de Wilson não é apenas um personagem que deseja obter o controle, como no instante em que aproxima lentamente as mãos do gravador enquanto escuta sua voz de 30 anos atrás. É alguém que efetivamente detém o controle, a exemplo do súbito movimento que faz, interrompendo a chuva intermitente que cai sobre a espécie de bunker no qual permanece confinado.

Tudo na cena proposta por Wilson parece estruturado de maneira milimétrica. O ator/diretor dá a impressão de ter se voltado mais para a realização de uma coreografia de movimentos do que propriamente de uma partitura de ações. Investe em movimentos estilizados, cuja construção permanece à vista do espectador. Mas esses movimentos não anunciam de maneira óbvia aquilo que se deseja transmitir porque formam uma espessura contrastante com a expressão do ator. Em diversos momentos, Bob Wilson parece executar um movimento enquanto seu rosto sugere sintonia com algo diverso. Há uma preocupação em não reiterar sentidos, não sublinhar uma camada interpretativa.

Bob Wilson. Foto: Mariano Czarnobai

A expressão de constante perplexidade de Krapp/Wilson, realçada por uma iluminação que envolve o rosto do ator numa espécie de aura, potencializa o impacto decorrente da passagem do tempo. Krapp, em certos instantes, sente necessidade de se distanciar da gravação que o transfere para experiências do passado, para um tempo em que ainda “havia chama de felicidade”. Parte da energia de Krapp na época em que tinha 39 anos permanece às vésperas de completar 70, mas o personagem se vê confrontado com a constatação de que “os melhores anos já foram”. A hesitação do personagem é valorizada pelo silêncio num espetáculo tomado pela constância de sons monocórdicos e exasperantes.

A iluminação, elemento determinante no teatro de Bob Wilson, recorta o rosto do ator. O espaço oscila entre a luz fria e uma tonalidade um pouco mais suave, acompanhando (sem ilustrar) uma transição sugerida no texto. A preponderância de cores neutras (preto, branco e cinza, harmonia quebrada por uma meia vermelha), a imagem do rosto de Wilson coberto com máscara branca e o próprio registro interpretativo sugerem conexão direta com o cinema mudo.

Daniel Schenker é doutorando da UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da Isto É / Gente.


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