Uma companhia e seu Brecht

Crítica da peça Havana Café da Cia. Ensaio Aberto

25 de julho de 2011 Críticas
Foto: Divulgação.

A Companhia Ensaio Aberto comemora 18 anos de uma trajetória teatral com uma marca bem delimitada em seus trabalhos, um teor político marcadamente épico na forma que busca dialogar diretamente com a obra do dramaturgo alemão Bertold Brecht. O autor alemão é influência assumida e inspiração central para o grupo carioca. É possível vislumbrar sua história no projeto Armazém da Utopia com a qual a companhia ocupa o Armazém 6 do Cais do Porto do Rio sob o patrocínio da Petrobrás. No grande galpão de frente para a bela baía de nossa cidade, há fotografias, instalações com os objetos cênicos dos espetáculos, vídeos e a cenografia inteira do premiado Missa dos quilombos (com ações de performers, que trazem o espírito do espetáculo). A exposição revela um repertório preocupado com as questões políticas, como das minorias excluídas historicamente (os negros, os retirantes nordestinos, os loucos e etc.). Ela coloca esse discurso como um guia dos trabalhos do grupo e da própria ocupação do armazém da Praça Mauá.

Nesse momento tão especial de sua história, o grupo trouxe de volta ao palco, instalado no mesmo armazém num espaço contíguo à exposição, Havana Café. O espetáculo teve sua estreia em 2004 e cumpriu uma carreira longeva. O que me parece interessante é a escolha da companhia, que para brindar sua maioridade opta por um espetáculo que canta Kurt Weill e declama Brecht, conferindo contundência épica as performances e procurando divertir-se e divertir o público.

O musical inspirado nos cabarés da capital cubana da década de 1950 ou da Berlim de 1920 traça um paralelo à boemia, devassidão e degradação dos cabarés e termas da Praça Mauá, operando assim um discurso dialético que tece teias entre partes diversas e historicamente distintas. O espaço que coube ao teatro é bem menor do que se dimensiona ao visitar a exposição e, me parece que ao criar esse contraponto, a aproximação físico-espacial entre atores e espectadores se torna a tônica do espetáculo. A cenografia de Claudio Moura distribui mesas e cadeiras pela plateia, com um bar que funciona bem ano centro. Há um tablado que se liga ao espaço do público por passagens laterais que funcionam como espaço de atuação. Também o bar, um balcão quadrado e fechado, é usado pelas coristas, conferindo assim a possibilidade de uma visão que ultrapassa a frontalidade. Essa disposição possibilita um diálogo entre a cena e o público de forma mais contundente, além de conferir ao espaço a concretude do sentido ébrio e de luxúria que habita o ambiente de um cabaré.

É aspecto determinante nesse espetáculo a disposição espacial por onde se dá a ação e onde habita o espectador. É a partir dele e nele que os espectadores podem fazer uma leitura mais crítico-reflexiva do trabalho de Luis Fernando Lobo e da Ensaio Aberto. É o clima ébrio e vulgar que a ambiência proporciona ao adentrar o espaço da encenação, a possibilidade de beber e fumar no espaço teatral, de confraternizar com o “estranho” ao seu lado (que está numa mesma mesa de bar que você) uma taça de Martini, que faz essa experiência se transformar, em certa medida, em um evento teatral compartilhado entre as instâncias da cena e da plateia.

Havana Café tem dramaturgia de João Batista e Luis Fernando Lobo (que assina a direção) a partir de poemas e trechos de peças de Brecht, como Ascensão e queda da cidade de Mahagony. O que os dramaturgistas operam é uma compilação desses poemas e trechos entrecortados por músicas e que se mostram em partes, fragmentos de um discurso. Cada fala entoada é independente do todo, são quadros que dinamizam a estrutura dramatúrgica que não requer o espectador que “absorve” a cena de forma passiva, mas aquele que emite um juízo crítico a posteriori. Para Brecht e para a Ensaio Aberto, especialmente nesse trabalho, a questão do prazer ligado ao teatro como lugar de diversão que aciona a consciência crítica do espectador é um norteador determinante e chave para leitura estético-formal. Assim, tanto na forma textual como na performance dos atores, em Havana Café está em jogo o teatro como espaço para a galhofa, onde a diversão é vista no modo como se relacionam com o público presente, no gestual e na forma de cantar as songs de Weill (as versões são de Claudio Botelho, Luis Fernando Lobo e Aldir Blanc).

Desse modo o tom épico do espetáculo, e da própria companhia, desliza em momentos excessivamente didáticos e frios, principalmente na fala das atrizes, as coristas do cabaré. É como se víssemos mais a representação de coristas do que de fato atrizes que se transmutam entre personagem e atuador, como do próprio jogo brechtiano que propõe uma atuação em que essas duas instâncias devem dialogar e ser vistas em cena abertamente pelo público. Parece que a palavra falada estabelece um afastamento com o espectador e de certa forma com a particularidade de cada atriz, sendo que não é possível vislumbrar com clareza a postura em que o ator mostra o personagem e a si mesmo no próprio “fazer”. Ocorre, a meu ver, mais uma representação idealizada de um modelo do que uma atuação em que se hibridiza ator/personagem. É nas canções executadas ao vivo pelos músicos Monique Aragão, Pedro Aune e Diego Terra sob direção de Felipe Radiccetti que as coristas/atuadoras materializam com maior contundência esse jogo de humanidades entre ator-personagem, onde uma terceira humanidade, o espectador, é acionada e envolvida ao jogo. Sem disfarces. As canções são executadas com vozes potentes e emanando o tom festivo e malicioso das penas de Brecht e Weill. Provocam a sensibilidade do espectador na medida em que demanda a sua atenção ao que se canta como se canta e ao conteúdo dos versos musicais.

Informações sobre temporadas no site da Companhia Ensaio Aberto: http://www.ensaioaberto.com/

Dâmaris Grün é atriz e graduanda em Teoria do Teatro pela UniRio.

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