Flagrantes de desolação afetiva

Crítica da peça Vieux Carré, de Tennessee Williams, encenada pelo Wooster Group

31 de março de 2011 Críticas
Atores: Ari Fliakos e Kate Valk. Foto: Steven Gunther.

Há muito de Tennessee Williams nos textos que escreveu. A fragilidade de Laura, de À margem da vida, refugiada num mundo repleto de delicados bichinhos de cristal, e a crescente renúncia de Blanche Dubois, protagonista de Um bonde chamado desejo, ao mundo externo expressam o desconforto do dramaturgo diante da realidade. Pelo menos, do modo como foi confrontado com a realidade, considerando as agruras familiares com as quais se deparou. Não por acaso, suas peças trazem à tona a necessidade de construção de um universo ilusório, paralelo.

Vieux Carré, texto de Williams de 1977, encenado com menos constância do que as obras citadas, evidencia questões caras ao dramaturgo. Existe uma tentativa no personagem de 28 anos, provável alterego de Tennessee Williams, de encontrar sua natureza, afirmar sua verdadeira identidade. A vergonha de revelar o próprio corpo e o desamparo diante de um cotidiano solitário (destaque para a evocação da avó) num Estados Unidos distante da efervescência dos centros urbanos (o Sul do país é geografia determinante na dramaturgia de Williams) sugerem uma inspiração autobiográfica. É marcante no trabalho do ator o constrangimento frente à revelação da intimidade, a fala destituída de impostação.

A criação desponta, em Vieux Carré, como uma espécie de catarse. A montagem da companhia Wooster Group realça o processo e o tempo de criação do personagem, que extravasa por meio da ficção a dificuldade em relação ao modo como a vida se apresenta diante de seus olhos. As palavras são projetadas ao fundo da cena e, a partir de dado momento, todos os demais personagens parecem mais projeções de seu imaginário do que propriamente figuras reais, ainda que o meio-ambiente, tomado por sexualidade crua e flagrantes de decadência, seja bastante realçado no decorrer da encenação.

Fundado por Elizabeth LeCompte e pelo falecido performer Spalding Gray, o Wooster Group, uma das companhias mais representativas da cena novaiorquina, costuma priorizar a interface entre teatro e cinema por meio da utilização de projeções em seus espetáculos. Em Vieux Carré essa marca do grupo está presente, seja através da preocupação em estabelecer sincronia entre as ações dos atores e as imagens projetadas em vídeo (como que presentificando a imagem cinematográfica, normalmente vinculada a uma captação circunscrita num determinado passado), seja por meio da valorização das lembranças do personagem. Uma dimensão que também implica numa presentificação do passado.

Com frequência, as imagens registradas carecem de nitidez. Surgem gastas, como o tablado por onde circulam os atores, espaço arruinado que demarca a cor local de uma Saint Louis do submundo e também o desamparo afetivo do personagem central. Esse “quadro” é sublinhado pela cenografia, cuja desorganização na disposição dos elementos soa proposital. Pelo palco, formado por dois tablados retangulares de tamanhos diversos, há duas telas suspensas, grades, um balde sobre um televisor e mais televisões pequenas ao fundo cujas imagens são difíceis de distinguir pelo espectador. A construção da cena está à mostra diante do público. Não por acaso, a iluminação é manipulada pelos atores em alguns momentos e a equipe de criação trabalha ao fundo do palco, ao longo de todo o espetáculo.

Informações sobre a montagem de Vieux Carré no site do Wooster Group: http://www.thewoostergroup.org/twg/twg.php?vieux-carre

Daniel Schenker é doutorando em Artes Cênicas pela UniRio e crítico de teatro do Jornal do Commercio e da revista Isto É/Gente.

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