A arte de escutar

Conversa com Carla Faour

20 de março de 2009 Conversas
Foto da peça A arte de escutar. Foto: divulgação.

“(…) Escutar é mais que ouvir. É mais do que estar parada em frente a alguém dividindo o mesmo metro quadrado. Escuta-se por todas as células do corpo. Escuta-se com as mãos, com os olhos, com a respiração, escuta-se inclusive com os ouvidos… Uma postura escuta, um gesto escuta, a boca escuta. Há que se deixar apagar e se concentrar no outro para vivenciar a plenitude da experiência auditiva, há também que se eliminar quaisquer ruídos de interferência como pensamentos que voam, telefones que tocam, vaidades que afloram, vontades de ir ao banheiro… Muitos dizem que a fala distingue o ser humano dos outros animais. Discordo. Saber escutar é o que nos dá humanidade (…).” (Carla Faour, A Arte de escutar).

Michelle: Carla, a sua formação é de atriz. De onde e como surgiu a vontade de escrever? Você tinha alguma proximidade com a escrita antes de escrever a peça?

Carla: Eu tinha vontade de ser atriz, mas a minha habilidade maior era escrever.  No colégio, sempre fui excelente aluna de português e história, e escrevia bem. Antes de entrar na CAL eu fazia jornalismo. Fazia duas faculdades juntas de jornalismo, a PUC e a UERJ, e achava que o meu caminho era esse. Entrei na faculdade de jornalismo achando que eu ia escrever livre, leve e solta, e dentro do jornalismo você acaba tendo muita técnica. Eu gostava, mas não era o meu meio de expressão. Dentro da faculdade eu entrei num grupo de teatro, de lá eu me inscrevi na CAL e quando descobri o teatro foi uma coisa definitiva. Quando os horários começaram a bater eu não pensei duas vezes, larguei o jornalismo e segui com o teatro. Mas sempre fui uma leitora voraz. Só que a coisa da atriz era muito forte, produzia, atuava, não me sobrava muito tempo pra escrever. Esse lado ficou um pouco adormecido, eu sempre escrevi poesia, mas era autora de gaveta, não mostrava pra ninguém. Há uns anos atrás comecei com as adaptações e esse ano eu decidi montar uma coisa minha.

Michelle: Até que ponto o seu trabalho como atriz influencia ou influenciou a sua escrita para teatro? Você acha que o fato de você ser atriz é algo decisivo na construção da sua maneira de olhar o mundo e a própria cena?

Carla: Sem dúvida. Eu acho que o olhar da atriz ajuda a autora. Pelo poder de observação. O ator observa muito pra construir personagem, jeito, voz. E o autor também. Facilita muito, acho que eu já saio na frente pra construção de personagem, eu sei o que torna um bom personagem e bons personagens contam boas histórias. Isso sem dúvida é um plus, é uma coisa facilitadora, a atriz ajuda muito a autora.

Michelle: De que modo se estabeleceu a troca entre o seu trabalho e a direção do Henrique (Tavares), companheiro de vida e de palco?

Carla: Cem por cento. Nesse primeiro texto, eu tava muito insegura, depois de tanto tempo como atriz. O Henrique foi a primeira pessoa que me disse que eu tinha uma boa ideia nas mãos e podia investir nela. Além disso, ele escreve, foi a primeira pessoa a ler o texto, me deu toques. A gente fez uma produção sem dinheiro, então a direção era fundamental pra entender o espírito dessa montagem e traduzir da melhor forma cênica esse texto, que na verdade é um texto baseado nos atores e nessa direção simples. É tudo muito simples, as histórias se contam por elas mesmas, elas têm força. O Henrique foi decisivo na hora de trabalhar o ator, o texto, marcas simples, expressivas. Eu divido assim: cinqüenta por cento é o texto, cinqüenta por cento é a direção.

Michelle: Agora duas perguntas em uma. Como você encara essa vertente feminina e jovem de autoras na faixa de 30 e poucos anos no teatro carioca? Você acredita que esse fenômeno possa crescer?

Carla: Eu não consigo ver uma escrita feminina. Muita gente pergunta o que é diferente da mulher para o homem escrevendo. Acho que a grande diferença são os bons textos e os maus textos. Ou é um bom autor ou não é. Eu vejo que a gente tem uma safra bacana de autoras escrevendo, e talvez os temas que a gente escolha, eu acho que a mulher é mais rica em detalhes; os pormenores talvez o olhar masculino não tenha. Não é que a mulher tenha mais sensibilidade, mas é um tipo de sensibilidade diferente. Eu acho que a gente tem uma safra muito boa, eu fiz uma matéria há pouco tempo com quatro autoras, eu, a Dani (Daniela Pereira de Carvalho), a Leca (Alessandra Colasanti) e a Julia Spadaccini. Ano passado, eu tava com dois espetáculos, a Dani com dois, a Julia com um, a Leca com um, quer dizer, em uma temporada com 30 ou 40 espetáculos, seis espetáculos de mulheres contemporâneas fazendo textos inéditos, acho um número bastante expressivo. E tem muita mulher escrevendo que talvez não esteja montando por falta de oportunidade, porque são todas mulheres produtoras que acabam bancando os seus trabalhos.

Michelle: O que representou para você a indicação ao Prêmio Shell na categoria de melhor autor logo no seu texto de estreia?

Carla: Uma surpresa, em primeiro lugar. Uma felicidade muito grande. Eu senti como se eu recebesse um foco de luz porque a partir da indicação outros desdobramentos vieram. Eu consegui um patrocínio para o meu segundo texto que eu estreio no final desse ano, fui convidada por uma editora pra escrever um livro em cima da “Arte de escutar”. Nesse momento, estou escrevendo esse livro que não é a publicação do texto, eu estou transformando o texto teatral num romance, numa ficção. O que pra mim é muito curioso porque geralmente a gente faz o caminho inverso, o teatro bebe na literatura. Poucas vezes a gente vê a literatura bebendo no texto teatral, essa transposição ao inverso. Eu me sinto muito honrada de ter recebido esse convite, foi um convite que eu não procurei, não solicitei, me caiu no colo, então pra mim é um desafio enorme. Imagina: primeira peça pra primeiro livro, é uma loucura (risos).

Michelle: O seu texto fala da capacidade de escutar. Em tempos onde a imagem ganha um valor tão grande, qual a importância da escuta?

Carla: É fundamental. Eu acho que a gente tem que recuperar o prazer do ouvido. O prazer, a beleza, a emoção estão hoje em dia muito associados à imagem. O que emociona? Quando você ouve a beleza das palavras, um texto bacana e uma história de vida que te emociona, eu acho fantástico. Se alguém tiver me contando uma história interessante eu não preciso abrir a boca. Eu falo pra caramba, mas eu sou uma excelente ouvinte, e tenho muito prazer nisso.

Michelle: “A Arte de escutar” é a história de uma protagonista coadjuvante. Como foi para você escrever sobre uma protagonista que está a margem, fora do centro, deslocada enquanto persona, uma testemunha invisível, como você diz no texto? Quem é o protagonista de fato, a escuta ou aquele que escuta?

Carla: O meu espetáculo é a arte de escutar e a arte de contar histórias também. Eu comecei essa história não por quem escuta, mas pela outra ponta. Me intrigava muito essas pessoas que paravam em  fila de banco, supermercado e começavam a contar as histórias e falar com intimidade, contavam coisas absurdas. Como é que isso acontece? Comecei a escrever sobre essas pessoas, depois eu comecei a ver que a coisa mais interessante nessa história toda é a pessoa que escuta, é o coadjuvante, porque não é com todos que isso acontece. Não é todo mundo que pára, escuta e cede o lugar ao outro, eu falo isso no texto, escutar é um ato de generosidade. A pessoa tem que estar aberta pra isso. Eu acredito que existem pessoas que são uma antena parabólica que de certa forma, ou te inspira confiança, ou te dá abertura. Essas pessoas são as grandes catalisadoras desses momentos. Quantas pessoas estão querendo falar? A outra parte tem essa abertura de ouvir, tem essa aptidão e essa generosidade da escuta. A outra pergunta sobre quem é o protagonista, a escuta ou aquele que escuta, eu acho que as duas coisas vêm juntas. Aquele que escuta carrega esse ato, essa postura. Não sei. Pergunta difícil essa.

Michelle: No teatro, os atores devem aprender a ouvir a ‘deixa’ do colega de cena, ou seja, aquela frase ou palavra que deverá disparar uma resposta logo a seguir. Você acha que aprender a escutar o outro é uma prática pouco valorizada pelos atores jovens e pelo tipo de formação que os cursos oferecem a eles?

Carla: Sem dúvida. O ator tem aquela falsa impressão de que só está atuando e o público só está olhando pra ele a partir do momento em que ele está com a fala. Quando, na verdade, os grandes personagens e os grandes atores têm momentos belíssimos sem fala nenhuma, com o olhar, com uma pausa, com o silêncio. O silêncio é importantíssimo. Eu acho que os atores jovens e a própria formação não mostra isso, não deixa claro que na verdade você está atuando o tempo inteiro, no silêncio ou com a fala, protagonizando ou coadjuvando.

Michelle: Em “A Arte de escutar” você trabalhou com atores do seu grupo “Quem São Esses Caras?”. Fale um pouco sobre o trabalho em grupo e se você escreveu pensando em atores específicos para determinados papéis.

Carla: O nosso grupo é muito pequeno e a gente tem a prática de em cada espetáculo chamar atores de fora, o que é fundamental porque um grupo com uma trajetória tão longa, quando entra alguém de fora é como se desse pra dar uma respirada, beber de outra escola, daquela outra experiência, então a gente adora trabalhar com atores diversos. Esse espetáculo eu não escrevi pra ninguém em especial, não escrevi pensando em nenhum ator. O único personagem que eu escrevi pensando em ator foi o personagem do Isaac (Bardavid), o Homem no metrô. Eu escrevi um personagem com asma porque o Isaac tem asma, ele sofre muito em cena, não pode fazer esforço nenhum. Eu gosto muito dele, já é o quarto espetáculo que a gente faz juntos, então foi o único personagem que eu pensei. Eu tive muita sorte com o elenco porque parece que eu escrevi para aqueles atores, mas não foi. Tanta coisa mudou na escalação, eu escrevi pensando que eu faria a mulher que escuta, seria a coisa mais natural porque se tem algum personagem que tem um pouco da minha voz é a mulher que escuta. Mas aí, na confluência geral dos ensaios, meu primeiro texto, eu não queria ser uma voz como autora muito presente na atriz. Então, eu escolhi ser um personagem dentro da minha peça.

Michelle: Você pretende continuar a sua trajetória como autora? Qual é o próximo texto?

Carla: Não vou largar o osso mesmo. (risos). Ano retrasado eu fiz algumas oficinas no Teatro Poeira dentro de um projeto que o Aderbal (Freire Filho) desenvolve que é o Projeto Puente. Ele trouxe alguns autores estrangeiros pra ministrar oficinas de dramaturgia pra autores brasileiros. Eu fiz oficina com o Marco Antonio De La Parra, com o Sinisterra (José Sanchis), foram fantásticas essas oficinas. Numa dessas oficinas, eu desenvolvi uma cena e acabei desenvolvendo uma nova peça que chama “Açaí e Dedos”. Eu ganhei o patrocínio da Eletrobrás, o que também foi uma grande felicidade, eu sei que é muito difícil num segundo texto e pretendo estrear até o final do ano.

Newsletter

Edições Anteriores

Questão de Crítica

A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

Edições Anteriores