A cena da cidade

Conversa com Natasha Corbelino

20 de dezembro de 2008 Conversas

Natasha Corbelino é responsável pela iniciativa de intercâmbio entre grupos de teatro no Rio de Janeiro A cena da cidade.

DANIELE AVILA – Como se constituiu A cena da cidade, quais são seus os objetivos e pressupostos?

NATASHA CORBELINO – A Cena da Cidade começou como um movimento despretensioso gerado pela necessidade de aproximação entre os profissionais de teatro do Rio, pela carência de diálogo e cumprimentos entre nós e pela curiosidade para mapear os trabalhos/propostas. A partir de uma necessidade de abrir espaço na cidade para encontros que me permitissem saber os nomes e rostos de quem está a meu lado fazendo o mesmo trabalho, dei origem aos primeiros contatos em 2007. A resposta ao meu primeiro email foi tão grande e ativa que confirmei o óbvio: o desejo do encontro era dominante. O que fiz foi direcionar esta nuvem que paira em geral para uma ação propositiva.  A partir daí, as conversas virtuais ficaram mais focadas em realmente se formar um núcleo de organização para que o primeiro encontro físico acontecesse. Neste momento, entra a parceria do IBAM – Instituto Brasileiro de Administração Municipal, que possui um setor e um prédio (!) destinado à cultura, o Ibam Cultural, cujo responsável é o Felippe de Rosenburg. O Ibam Cultural albergou o projeto e hoje A Cena da Cidade funciona com o suporte de um teatro para 220 pessoas e duas salas, que tanto são usadas para apresentações como para os ensaios, seminários, reuniões, além da sala de produção e do site. Desde os primeiros emails, as parcerias foram fundamentais para que a idéia fosse viabilizada e é importante registrar os primeiros e fundamentais incentivos de algumas pessoas: Flavio Franciulli, Andrea Maciel, Andrea Stark, Cassiana Rodrigues, Cla Leal, Debora Bapt, Felippe de Rosenburg, Gabi Caspary, Helena Borschiver (dos Atores Rapsodos), Janaína Prado, Maria Clara Guim e Monique Cruz (da Casa Cinco), Julia Carrera, Marina Fraga, Ricardo Schöpke (da Cia Boto Vermelho) e Stella Brajterman. No primeiro encontro, além da social prevista para o fazer amizade, já foi oferecida uma plataforma de oficinas de reciclagem para profissionais a preços simbólicos (R$30,00) que seriam ministradas no mês seguinte. A partir daí, seguimos com um planejamento de ações que pudessem ampliar nossa atuação para além do encontro e das oficinas. Em um segundo momento, parceiros novos aderiram e deram mais gás para a organização do coletivo, como a criação do site www.acenadacidade.com.br, feito pelo Jaime Rodrigues, com o suporte textual da Roberta Maia, os dois da Súbita Companhia de Teatro. Além deles e dos que eu falei antes, nosso núcleo de resistência conta com o Marcus Galiña, do Monte de Gente Coletivo Teatral, o Diego Molina, do Teatro de Nós, a Larissa Câmara, do Drama Diário. Este núcleo ficou melhor definido na época da I Mostra, quando a necessidade de ações conjuntas foi decisiva. Temos também colaboradores flutuantes, e não menos produtivos, como a Stela Celano, o Lucianno Maza, o Renato Carrera e o Grupo A3, os integrantes do site Drama Diário, o Fernando Maatz e o pessoal da Anti-Cia. A Associação de Grupos & Cias é uma parceira potencial e, para 2009, estamos planejando ações conjuntas que nos fortaleçam simultaneamente. A médio prazo, A Cena da Cidade pretende agregar agentes da cultura e mapear o teatro do Rio e seu entorno, o que inclui outras áreas, como o cinema, a dança, a música. Nosso pressuposto é ser um projeto de intercâmbio e circulação de idéias, trabalho e conhecimento, onde a continuidade do diálogo seja ferramenta para iniciativas que atendam às demandas coletivas.

DANIELE – Existe um modelo de produção que você tenha adotado pra esse empreendimento?

NATASHA – No site, escrevemos assim: “Muito mais do que fórmulas prontas, A Cena da Cidade vai aos poucos se definindo a partir das necessidades dos que decidem aderir a essa idéia. Troca de conhecimento, espaço para ensaios e apresentações, oferta de oficinas, debates sobre políticas culturais, contatos, tudo isso cabe na pauta do projeto.” Desde que começamos, conversei com várias pessoas, como o Flávio Franciulli, que está na França e tem bastante intimidade com a estrutura de coletivos artísticos. Nossa principal meta é alcançar uma identidade própria, daí a dificuldade, e mesmo a resistência, em implantar um modelo pré-estabelecido. Queremos um andamento que seja dado pelos próprios grupos participantes, com o eixo das contrapartidas funcionando plenamente. Ou seja, é fundamental que quem entra, esteja disposto a participar do coletivo em todas as suas etapas, não como obrigação, mas sim pelo entendimento de que é este comprometimento que vai fazer com que A Cena ande para todos. O interesse em assistir o desenvolvimento do trabalho dos demais é o primeiro passo. Temos o núcleo firme e forte, que permanece desde o início como suporte para o conceito do projeto, que são os artistas que pensam continuamente A Cena da Cidade, independentemente de estarem ou não utilizando o espaço físico do Ibam de forma constante. Há também os flutuantes, que são aqueles que vêm em determinado período, desenvolvem seus projetos, ensaiam, pesquisam, realizam as contrapartidas e seguem adiante. Aos poucos, vamos chegar a um modelo próprio.

DANIELE – Como os integrantes que formam A cena da cidade lidam com a questão da viabilidade econômica de seus trabalhos? Como estão inseridos no cenário cultural do Rio?

NATASHA – Neste ano de 2008, 18 projetos estiveram nA cena da Cidade, destes apenas 03 eram patrocinados. O que consideramos hoje trabalhos que estão inseridos no cenário cultural do Rio? Trabalhos que conseguem ao menos seus tijolinhos publicados no jornal? Trabalhos criticados por Bárbara Heliodora? Trabalhos que ficam mais de uma temporada em cartaz? Os que conseguem estrear? Os que são vistos pela classe? Os que caem no gosto do público? Por quais vias? E que público é o co-autor do nosso circuito? Enfim, seja qual for o critério para inserção no cenário cultural, é certo que os grupos dA Cena da Cidade estão em sua maioria no entorno do chamado circuito oficial. Os projetos acontecem, os profissionais trabalham, a criação permanece. A idéia é promover repertórios e linguagens próprias para ocupar possíveis nichos de mercado. Por isso, nosso pensamento tem se voltado para projetos que por sua natureza fujam da necessidade de inserção neste cenário cristalizado, e que ao mesmo tempo sejam projetos que colaborem para que mudanças aconteçam. Cada vez mais queremos desenvolver a parceria com a Educação, hoje a menina dos olhos do coletivo. Ir além do projeto-escola, da meia-entrada para estudantes legítimos… A Cena da Cidade pretende realizar idéias artísticas financiadas, sim, mas que estejam ligadas à formação da sociedade. Para nós, um circuito cultural interessante e possível hoje está sendo construído nas Escolas, não só pelos alunos, como formação de platéia a longo prazo, mas também e, principalmente, pelos Educadores, público difusor potencial de idéias.

DANIELE – O que você pode concluir nesse momento sobre a primeira Mostra d’A cena da cidade? Como esse evento mexeu ou não com a visão ou expectativa dos envolvidos, no que diz respeito à recepção e à viabilidade do evento?

NATASHA – Não adianta falar aqui das dificuldades de se produzir um festival (ou qualquer coisa) para onde os olhares ainda não estão habituados a estar… Essas dificuldades, as do mercado, são gerais. O que interessa para A Cena da Cidade é o que o coletivo pode causar como incubadora de vários projetos. Então, se temos uma Mostra, os primeiros a fazer a recepção deste árduo trabalho conjunto acontecer temos que ser nós. Mas o que realmente nos interessa não é ver cumpridas as contrapartidas acordadas pelo uso do espaço e ok, já fiz minha parte, já bati meu ponto na construção do coletivo. A cultura de formação de qualquer grupo é muito difícil de ser implantada. Soma-se a isso a resistência que o artista (pelo menos aqui no Rio) tem para ser platéia, o que muito me impressiona. Nós não nos assistimos! Ainda que o princípio do projeto seja o conhecimento do outro que é seu par, a falta de vontade de ver persiste. A conversa de corredor ainda é mais interessante e colorida que o trabalho. Que bom que podemos ter este encontro, e já saber alguns nomes e rostos, mas isto só não basta. Nem todos os grupos que dividem o mesmo horário de ensaio nas salas do Ibam, e que portanto se encontram diariamente, estiveram nos espetáculos dos outros. Os que assistiram a programação são aqueles que realmente estão aqui pelA Cena da Cidade e não só por seu projeto pessoal. Esta é a diferença aqui: não podemos ser mais um espaço para ensaios, temporadas, uso. Para cumprir com nosso plano, ou seja, para continuar existindo, é preciso o pensamento constante da troca e do coletivo. Existem vários projetos que pulsam dentro de um grande corpo, que é A Cena da Cidade. Para este corpo conseguir se mexer, não basta respirar todo dia, falar algumas palavras. É preciso a motivação para que ele saia do lugar.

DANIELE – A partir da discussão proposta na mesa-redonda que aconteceu na Mostra, sobre artistas empreendedores, o que foi possível concluir?

NATASHA – Os integrantes da mesa foram o Lucianno Maza, o Caesar Moura, a Filomena Mancuzo, o César Augusto e o Daniel Dias da Silva. Lucianno, que diretamente de São Paulo ajudou a realizar a mesa, e eu daqui, buscamos uma composição que reunisse autores, atores e diretores empreendedores, para que cada um falasse da sua experiência em cada área da criação. A mesa foi onde vimos possibilidades para A Cena da Cidade acontecer além do palco. Disto, eu concluo que, mais que realizar espetáculos, precisamos e queremos promover iniciativas comuns, onde predomina o pensamento para ações continuadas. Vou tomar a liberdade de reproduzir abaixo alguns trechos das falas do Daniel e do Caesar, que são próximos do que pensamos para A Cena. Daniel: “…A parceria é fundamental! (…) Como “realizador”, sei que muitas produções se colocam numa posição de “hóspedes” e muitos teatros, na posição de “gerentes de hotel”, o que não contribui em nada no resultado final. (…) Outra questão que é importante é que, como “empreendedor” sempre fui obrigado a entender um pouco de som, de luz, das necessidades da cena, do palco… A necessidade me levou a passar pelas diversas posições do jogo. Isso me ajuda a entender os mecanismos que movimentam essa grande máquina, a importância de cada jogador e me ajuda a ser não apenas melhor ator e melhor diretor, mas também a ser melhor administrador.” (atualmente, ele é diretor artístico do Teatro João Caetano) e Caesar: “Querer ser popular (ser reconhecido pelas classes pelo seu trabalho) é legítimo, se em primeiro lugar vier o trabalho em si, o “o que eu quero, o que eu preciso dizer agora” e não o “vamos (…) chamar um Global, estrear no horário nobre do Shopping da Gávea e ficar 4 anos em cartaz”. Não dá para se começar pelo fim. E encontrar pessoas com disposição para o trabalho operário que antecede o “abrir das cortinas” tá cada vez mais difícil. Indiscutivelmente ninguém desenvolve um projeto teatral sozinho (…) Acho mesmo que todo mundo que tá começando a fazer teatro DEVE passar pela experiência de ter um Grupo. Se o cara for esperto sai de lá mais preparado, mais fortalecido, mais capacitado para lidar com gente.

DANIELE – Existe uma formação em comum entre os participantes d’A cena da cidade? O que os aproxima e distingue?

NATASHA – A Universidade é muito presente na formação dos participantes. Outro fator de aproximação é a pesquisa de linguagem continuada e o texto autoral. Também a falta de verba… Já as diferenças ficam por conta dos temas e das linguagens. Ainda que a grande maioria trabalhe com textos inéditos e autorais, a variedade dos temas entre eles é riquíssima. E cada grupo vai por um caminho bem diferente do outro como estética. A idade também é fator de aproximação, a grande maioria é de jovens artistas. Como podem participar projetos de grupos ou de artistas independentes, em fase de criação ou já realizados, ou mesmo trabalhos estritamente de pesquisa (a única exigência é que todos sejam projetos que valorizem o processo artístico e não apenas o chamado resultado para exibição/conclusão), temos um painel muito colorido de participantes. Vários caminhos, propostas diversas, o que contribui para que o pensamento seja permanentemente instigado.

DANIELE – O que você pensa sobre a relação da sua geração com a crítica? Existe uma expectativa ou uma cultura de relação com a crítica?

NATASHA – Somos uma geração pouco criticada e muito crítica, é o que penso. Pouco criticada em todos os níveis: pela hegemonia do Globo, pela falta de diálogo entre a crítica e o espetáculo como obra de arte, pela prioridade de espaço da crítica impressa para os espetáculos “maiores”, que, sejam quais forem, não são os da maioria da minha geração… Talvez nosso espírito crítico permanente, que colabora para a resistência ao encontro, venha pela falta de referência da crítica como lugar de diálogo e reflexão. O contexto predominante é cruel, no qual a crítica vale muito mais como apresentação de projeto para patrocinador do que como meio de construção do espetáculo. Por outro lado, minha geração também vive um momento muito positivo com a chegada dos veículos virtuais especializados e a expectativa pela crítica jovem e renovada é muito grande. Meus pares querem estar mais próximos do crítico, sim, mas ainda estamos descobrindo como chegar e como fazê-los chegar a nós a partir da reflexão sobre a obra de arte.

Vol. I, nº 10, dezembro de 2008

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A Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais – foi lançada no Rio de Janeiro em março de 2008 como um espaço de reflexão sobre as artes cênicas que tem por objetivo colocar em prática o exercício da crítica. Atualmente com quatro edições por ano, a Questão de Crítica se apresenta como um mecanismo de fomento à discussão teórica sobre teatro e como um lugar de intercâmbio entre artistas e espectadores, proporcionando uma convivência de ideias num espaço de livre acesso.

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