Transições demarcadas estruturam atuação

Crítica da peça O grande inquisidor

20 de outubro de 2008 Críticas
Ator: Bruce Myers. Foto: Fernanda Chemale.

Extraído de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski, O Grande Inquisidor, na versão do diretor Peter Brook, evidencia uma concepção de teatro calcada na presença do ator como elemento primordial. Esta característica vem norteando os espetáculos de Brook (a exemplo do recente Fragments), que, em décadas passadas, percorreu aldeias africanas com seus atores. Uma experiência comprovadora de que o teatro é uma manifestação artística fundada nas presenças do ator e do espectador, sendo que ambos não precisam necessariamente falar a mesma língua. Esta perspectiva remete ao Teatro Pobre, de Jerzy Grotowski, que, por meio de tal expressão, não se referia a uma eventual importância da escassez de recursos, mas sim a uma essencialidade do teatro, localizada no ator.

Nesse sentido, O Grande Inquisidor, um dos espetáculos mais destacados da última edição do festival Porto Alegre em Cena, deve ser analisado a partir do trabalho de Bruce Myers, ator do Centro Internacional de Pesquisa Teatral, de Peter Brook, há muitos anos. Myers transita entre o narrador e o Grande Inquisidor, que estabelece uma discussão com Jesus – centrada, entre outras questões, na dificuldade do ser humano em lidar com o livre-arbítrio, no conflito entre as esferas da transcendência e do pragmatismo e na utilização do símbolo da base de sobrevivência (o pão) como eventual instrumento de manipulação – conforme relatada, em Os Irmãos Karamázov, por Ivan a um de seus irmãos, Aliócha.

Bruce Myers frisa os momentos de passagem entre o narrador e o Inquisidor. O ator marca as transições entre o narrar e o viver, reforçando esta segunda instância através de composições sustentadas por variações no registro vocal e pela utilização de gestuais, em especial no que se refere às mãos para valorizar determinadas falas. É como se a fala não se constituísse – pelo menos em alguns momentos – material suficiente para provocar a imaginação do espectador e fosse preciso investir numa movimentação física mais indicativa daquilo que está sendo dito. O recurso, apesar de tangenciar o ilustrativo, resulta mais próximo do sugestivo. Seja como for, Myers contrabalança a aridez e austeridade da cena de Brook com o que se costuma traduzir como colorido interpretativo.

De qualquer maneira, sua atuação não foi pautada na palavra como única fundação. O silêncio é destacado em certos instantes tanto na relação com o interlocutor quanto na criação e intercalação de zonas espaciais diversas: a mais “restrita”, abarcando o diálogo com Jesus; uma mais ampla, incluindo o público nas questões levantadas durante sua explanação; e outra, ainda mais abrangente, transcendendo o espaço da platéia. Bruce Myers procura delimitar as “áreas de atenção” não só por meio do modo como transita pela cena como também através do olhar. A iluminação (de Philippe Vialatte), que recorta um campo um pouco maior que o palco suspenso onde “se desenrola” a maior parte da “ação”, fronteira ocasionalmente ultrapassada pelo Grande Inquisidor, realça a demarcação de espacialidades distintas.

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