O registro de um Krapp

Crítica da peça A última gravação de Krapp

15 de outubro de 2008 Críticas
Ator: Sérgio Brito. Foto: divulgação.

A dramaturgia da peça A última gravação, de Samuel Beckett, nos apresenta um velho homem numa relação com seu gravador, através do qual se escuta os seus depoimentos registrados em diversas fases da sua vida. A cada ano o personagem Krapp escuta alguns destes depoimentos, nos quais ele não se reconhece mais. À medida que ele escuta as suas gravações, e percebe que já não possuem mais a mesma importância, vão sendo desdobradas várias vozes díspares dentro de uma estrutura monológica.

Essa multiplicação do personagem, efetuada pelo gravador, produz cortes e saltos temporais, constituindo uma estrutura coral, já que quem fala não é um só. Se o pronome “eu” só pode ser “eu” porque se constrói no presente do discurso, em A última gravação existe uma pluralização da 1ª pessoa que se estabelece devido à diversificação do tempo por meio das gravações. Então, é possível afirmar que o pronome “eu” na dramaturgia beckettiana quase nunca coincide com o sujeito que enuncia, pois quando o “eu” fala já não é mais o “eu” que fala.

Na montagem dirigida por Isabel Cavalcanti, com atuação de Sergio Britto, o que se vê é um monólogo sem tensões temporais internas, impedindo que o coro se apresente. Já na rubrica, Beckett cria uma diferenciação entre Krapp e a fita por meio da voz. Krapp deverá ter uma “voz cana rachada muito particular”, enquanto que a fita deverá ter uma “voz forte”. Na fita que Krapp ouve há citações de outras fitas que ele tinha acabado de ouvir naquela época. O desdobramento dos Krapps se dá por meio dessa fita que remete a uma outra fita – todas de diferentes anos –, e a voz – como já indicado na rubrica, e sabemos que a rubrica em Beckett tem a mesma importância que o texto – é a materialização desses tempos distintos e das multiplicações desse personagem. A fita em um dado momento diz: “Difícil acreditar que eu tenha sido alguma vez aquele cretinóide. Aquela voz!”. O eu do passado já não é mais o eu do presente, e a voz também é uma indicação de que Krapp não se reconhece mais ao ouvir a fita.

A cada fita, a cada tempo, Krapp é um. Por isso essa peça deveria remeter ao “não-reconhecimento” de si mesmo. Mas o que se vê/escuta em cena é um Krapp intacto, imutável e, por isso, único. Me parece que uma das coisas que impossibilita o salto temporal nesta montagem de A ultima gravação, é a indiferenciação entre a voz de Sergio Britto no presente e a voz da fita, criando sonoramente um único tempo. O desafio para o ator de Beckett é justamente a compreensão da voz como materialidade cênica, ainda mais em uma peça na qual a presença do gravador é tão fundamental quanto a do ator.  

Sergio Britto também reitera a redução da estrutura coral na medida em que estabelece uma relação saudosista entre o Krapp do presente – que ouve a gravação – e os outros possíveis Krapps de outros tempos. Não há uma encenação do “não- reconhecimento” de si mesmo ao ouvir as fitas. O que se vê é um nostálgico Krapp que revive – da mesma forma que viveu – o seu passado, fazendo deste presente, tal qual um drama burguês. O gravador deveria possuir a importante função de multifacetar o personagem Krapp, para ao mesmo tempo criar um paradoxo, pois a sua função de registrar uma identidade ficaria contradita por causar uma “não-identificação”.

Não desconsidero os reconhecimentos que existem na peça, como, por exemplo, quando Krapp ouve a fita e percebe que já naquele tempo ele não conseguia parar de comer bananas. Mas ainda assim a estrutura dramatúrgica parece gerar reconhecimentos muito mais da ordem do banal do que a valorização de marcos históricos na vida de um sujeito. Krapp, após ter ouvido a gravação em que falava de amores findados, sofrimentos e alegrias de um certo momento de sua vida, grava uma outra em que registra o que lhe é pertinente na atualidade e as suas impressões sobre a fita que acabou de ouvir – como faz em todos os anos. Nesta nova gravação, a valorização do trivial aparece – por exemplo, na fala em que Krapp diz: “Saboreei a palavra bobina. (Com deleite). Bobiiina! O instante mais feliz dos últimos quinhentos mil” – se contrapondo ao arrebatamento das coisas “importantes” da vida, principalmente daquelas do passado.  

O maior descompasso da apresentação que assisti ocorreu por acaso, quando a fita embolou no carretel, impedindo que a última gravação acontecesse. Após perceber o incidente, Sergio Britto continuou falando para seu gravador como se estivesse gravando, mas visivelmente a ilusão foi corrompida, e o que passamos a ver foi a impossibilidade de um homem registrar a efemeridade do presente. Talvez esse acaso tenha dado muito mais o tônus beckettiano do que aquilo que estava previsto.

Referências bibliográficas:

BECKETT, Samuel. A última gravação. In: Teatro de Samuel Beckett. Trad. Rui Guedes da Silva. Lisboa: Editora Arcádia, s/d.

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