Ser ou não ser Nelson Rodrigues

Crítica da peça Cachorro!

20 de março de 2008 Críticas

O espetáculo Cachorro! coloca em evidência dois problemas: o estereótipo rodrigueano e a questão da autoria de textos, quando estes são feitos a partir de um universo de determinado autor. No caso, a peça é livremente inspirada no universo de Nelson Rodrigues. A trama busca uma semelhança com seus textos, os nomes dos personagens são familiares aos seus, o texto tenta imitar uma construção de diálogos característica de suas peças, mas a peça não é de Nelson Rodrigues. A autoria é de Jô Bilac.

Aqui se faz necessário pensar o que é o universo de um autor e se é possível pensar este universo separadamente da sua escrita. Existe um universo de Nelson Rodrigues que prescinde de seus textos, que é autônomo, de domínio público? O que tem de importante e particular num texto deste autor: os jargões, as situações, o impacto sobre as questões morais do público, os desfechos trágicos, as gírias da época? Será que extrair do universo de um autor a sua própria escrita não é como retirar as bases da sua construção? Há um risco nesta escolha, o risco de não conseguir sair de uma espécie de clichê, de uma imagem convencionada pelo senso comum. Mesmo que as intenções sejam as mais sérias.

Em 2006, também no Teatro Maria Clara Machado, a peça Projeto K, de Walter Daguerre, suscitava a mesma questão. O texto foi feito a partir do universo de Franz Kafka. No entanto, a sensação era a de que o autor tentou “escrever um Kafka”, aplicando uma linguagem semelhante e uma trama identificável como kafkiana. A experiência da pesquisa é válida, naturalmente. Inspirar-se livremente em determinado universo literário pode resultar numa criação que propõe um diálogo crítico com aquela obra ou que produz uma fissura no universo em pauta, gerando uma autoralidade no processo de recriação. Em contrapartida, a aproximação pela semelhança pode apenas limitar tanto a produção criativa da pesquisa quanto a exploração mesma do objeto. Em casos como estes, a comparação com o original é imediata e difícil de superar.

Em Cachorro! não apenas o cenário feito com painéis móveis manipulados pelos atores, mas principalmente o registro de atuação escolhido – com seus comentários coreografados – compõe um tratamento aplicado à narrativa que é bastante adequado a uma forma de fazer Nelson Rodrigues característica de grupos jovens interessados em se experimentar neste contexto. A montagem apresenta uma conformidade com o imaginário criado em torno do autor, mas este “em torno” é quase um “à margem”, justamente pela ausência de impacto do próprio texto. A falta de poder de síntese na construção dos diálogos e a ausência de precisão no desenrolar da trama revelam uma distância do universo mesmo do autor que é objeto daquela pesquisa.

Para quem conhece Nelson Rodrigues pelos filmes das décadas de 60 e 70, ou pelo quadro A vida como ela é, que passava no Fantástico nos anos 90, o que define o universo do autor é a fábula, os personagens – “Mulheres insaciáveis, maridos traídos, ninfetas sensuais” como diz o texto promocional do DVD do programa da Rede Globo. Mas o legado mais forte do Nelson dramaturgo é a pesquisa formal do texto dramático – com traços de uma tensão interna que aponta na direção do pós-dramático. No texto de Jô Bilac, a pesquisa dramatúrgica parece querer somente servir à fábula, sem se voltar para sua construção formal. Ou, se houve a intenção de buscar uma tessitura dramática que dialogasse com a pesquisa que o próprio Nelson fez, isto não aparece na montagem.

O espetáculo é agradável e divertido para um público que busca entretenimento feito com simplicidade e bom gosto. Os artistas envolvidos fazem seu trabalho com garra e têm recebido elogios. Mas como pesquisa, o projeto não parece ter mergulhado profundamente no universo dramatúrgico do autor e também não chega a se projetar para fora dele. Em vez de livremente inspirado, o espetáculo fica preso na superfície de um universo rodrigueano congelado, sem desenvolver o que poderia ser um trabalho autoral de fato e sem movimentar o que já está dado como sendo “de Nelson Rodrigues”.

A conversa que Henrique Gusmão teve com o diretor, Vinicius Arneiro, revela algumas propostas do projeto. Uma delas é pensar o que Nelson estaria fazendo hoje, em 2007. Acho complicado. Mas me propus a pensar isso também. Nelson, se estivesse vivo, não estaria morto. (Está aí uma tautologia fundamental.) Acho pouco provável que ele tivesse dado as costas às estéticas contemporâneas e à experimentação de linguagem – textual mesmo – que se deu no diálogo com as novas mídias que passaram a fazer parte do teatro na segunda metade do século XX. Não vejo, em Cachorro!, um possível Nelson Rodrigues de 2007. Penso – e só posso mesmo especular – que ele teria ido ainda mais longe na desconstrução dos elementos que caracterizam o drama: as noções de personagem, ação, tempo, narrativa, etc. E provavelmente já teria feito do marido traído uma espécie de vendedor de pentes.

Vol. I, nº 1, março de 2008

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